Introdução

A novela da Rede Globo, Caminho das Índias, levada ao ar em 2009, despertou o interesse de muitos brasileiros pela cultura indiana e não foge ao lugar comum: tramas que envolvem dinheiro e poder, triângulos amorosos, infidelidade conjugal e a eterna luta entre o bem e o mal. No centro do enredo, o drama de um amor impossível de se concretizar devido às diferenças sociais entre o casal protagonista, vivido pelos atores Márcio Garcia e Juliana Paes – eles integram castas diferentes, o que, na Índia, significa exclusão total. A novela mostrou várias tradições do povo indiano, tanto que uma boa parte da equipe trabalhou intensamente em algumas cidades importantes da Índia como Nova Déli, a capital do país. Para o ator José de Abreu, um dos principais atores do elenco, “é uma estranha sensação viver numa terra que mistura deuses com excremento”. [1]

A Índia possui a segunda maior população do mundo: mais de um bilhão de habitantes. Em torno de 2050 poderá ter uma população maior do que a da China, com 1,6 bilhão de pessoas.

As principais religiões da Índia estão assim distribuídas:

Hinduísmo: 80,5%; Islamismo: 13,4%; Cristianismo: 2,3%; siquismo: 1,9%; Outras: 1,9%. Os idiomas principais são: Hindi, inglês e outras 21 línguas oficiais. [2]

I. Histórico

Sem fundador e sem credo específico, o Hinduísmo é uma das religiões mais antigas do mundo. Surgiu aproximadamente no ano 1500 a.C., quando um complexo de crenças transmitidas oralmente pelos árias (povos que invadiram a Índia por volta de 2000 a 1500 a.C.) deu origem aos Vedas (a literatura sagrada hindu), que por sua vez originou um complexo de sampradaias (seitas). A adoração era centrada nas forças da natureza.

Foram os europeus que designaram a tradição religiosa da Índia de “hinduísmo”, por volta do século XV. Os hindus, porém, referem-se à sua fé como sanatana dharma, que significa lei ou ensinamentos eternos, isto é, aquilo que não tem começo nem fim.

A filosofia hindu é tolerante com todas as formas de expressão religiosa, reconhecendo que todas conduzem à mesma “verdade”, por mais contraditórias que sejam. Isso se dá devido ao seu caráter sincrético, que absorve prontamente os elementos de qualquer credo com o qual entra em contato. Para os hindus pouco importa a diversidade antagônica e a ausência de lógica em sua filosofia; sua preocupação não está voltada para a forma de pensar, e sim, para sua maneira de viver, já que a vida é um ciclo que se repete continuamente (reencarnação). Há aproximadamente 700 milhões de hindus no mundo, estando a maioria concentrada na Índia.

II. Escrituras

A literatura hindu deve ser dividida de acordo com os diversos estágios de sua religião. O primeiro estágio é o Védico (2000 a.C.- 1000 a.C.). Os Vedas (sabedoria, conhecimento) são os principais livros desse período. Foram completados por volta de 1000 a.C. Escritos originalmente em sânscrito, compreendem quatro obras: Rig Veda (Salmos dos Conhecimentos — é formado por 1028 hinos dirigidos a vários deuses), Yajur Veda (Conhecimento das Fórmulas Sagradas), Sama Veda (Sabedoria dos Hinos, das Melodias) e Atharva Veda (Conhecimento da Magia, dos Encantamentos). Nessa literatura não há menção de vida após a morte. A idéia de reencarnação surgiria no segundo estágio.

O segundo estágio, o Bramânico – também conhecido como Bramanismo (1000 a.C.- 800 a.C.) fez surgir outro grupo de literatura, a saber, os Brahmanas (Sacerdotes). Tendo seu poder fortalecido pela necessidade contínua de sacrifício aos deuses, os brâmanes (sacerdotes) produziram tal literatura contendo instruções sobre os diversos sacrifícios, tanto domésticos como públicos. Contêm também lendas e instruções sobre a vida religiosa. Por meio de tais obras, os sacerdotes hindus apontaram os sacrifícios por eles realizados como a maneira para se obter a salvação. Exigiam pagamento pela realização dos rituais. Nessa literatura surgiram idéias como a transmigração da alma (reencarnação), a proibição de se comer carne bovina e a institucionalização das castas (sistema que dividia a sociedade indiana em vários grupos sociais, sendo os brâmanes a classe primaz).

O terceiro estágio denomina-se Hinduísmo Filosófico (800 a.C.–300 d.C.). Surgem os Upanishades (significando: assentado abaixo [dum mestre]), também conhecidos como Vedanta (significando: fim dos Vedas), cuja temática girava em torno da realidade humana, sua origem e seu destino. Desprezando os sacrifícios, salientavam que a salvação seria obtida através do discernimento espiritual, partindo da ação do próprio indivíduo.

Outras obras foram: Sutras (Linhas) — coletâneas que enfatizavam ensinamentos dos Vedas e dos Upanishades; Livro de Manu — repleto de preceitos morais, alguns semelhantes ao do Cristianismo, o livro aponta a salvação através da observância das leis védicas, enfatizando o sistema de castas; Ramayana (A Trilha do Deus Rama) — conta a história da sétima encarnação de Vishnu, Rama, que é destituído de seu reino, tem sua esposa raptada; depois, ajudado por Hanuman, o deus-macaco, liberta sua esposa; o Mahabharata (A Grande Guerra dos Bharatas) — tem como ponto máximo a seção intitulada Bhagavad-gita [Canto Celestial], que mostra o diálogo entre Krishna e seu amigo e devoto Arjuna, questionando se seria antiético matar seus amigos e parentes na guerra e os Puranas (histórias antigas que complementam os Vedas), que formam uma coleção de relatos religiosos.

III. Deus

Definir a concepção de Deus no Hinduísmo é tarefa complexa. Brahman é o deus supremo, porém, impessoal (embora às vezes seja adorado como um deus pessoal). Ele é o absoluto, contendo em si mesmo todo o universo. Ele é a origem, a causa e a base de toda a existência. Apesar de se calcular em mais de trezentos milhões o número de deuses no Hinduísmo, nega-se o politeísmo, pois todo esse panteão divino aponta para as diversas manifestações de Brahman, que é um só. Assim, um hindu pode adorar um ou mais deuses, sabendo, porém, que se trata do mesmo princípio ou essência. Dessas manifestações bramânicas, a Trimurti (a tríade hindu) é a que mais se destaca, sendo composta por Brahma (o Criador), Vishnu (o Preservador) e Shiva (o Destruidor). Detalhe: Todos são casados.

IV. Jesus Cristo

Não há posição oficial acerca de Jesus Cristo. Alguns hindus vêem-no como um sadhu, ou seja, um homem santo, ou um guru (guia espiritual). Poderia ter sido um avatar.

V. Espírito Santo

Não faz parte do corpo doutrinário hindu.

VI. Salvação

Alcançar a moksa (salvação, libertação) é a suprema meta do hindu. A alma está presa ao corpo no mundo material. As ações do homem (karma) tornam-no responsável por seu próprio destino. Seus erros deverão ser expiados numa série de reencarnações (samsara). Certas regras e práticas são indispensáveis para libertar a alma do samsara. O caminho que pode levar o hindu à moksa é conhecido como marga ou yoga, que significa junção, fusão, ou seja, o indivíduo funde-se com o Absoluto Universal (Brahma). Há vários tipos de yoga, independentes entre si, cabendo ao devoto escolher a que melhor lhe convém. As principais são:

  • Janana-yoga (caminho do conhecimento) – é o método onde o que predomina é a atividade intelectual, empírica (exercício mental). Sua função é levar o indivíduo a perceber que a alma espiritual (o verdadeiro “eu) não é parte do mundo material, mas sim, da suprema totalidade espiritual (Brahman).
  • Bhakti-yoga (caminho da devoção) – é o método que leva o indivíduo a devotar-se ao deus (manifestação de Brahman) de sua escolha (exercício espiritual e emocional). O que predomina neste método é a emoção. Qualquer casta pode seguir este caminho, que é o mais popular do Hinduísmo. Contrapõe-se às práticas ascéticas do método janana.
  • Karma-yoga (caminho da ação) – é o método que indica quais ações (karma) o indivíduo deverá efetuar no seu dia a dia (exercício físico). Suas ações são determinadas pela casta a que pertence. Assim, à medida em que realiza o dharma, ou seja, cada coisa comum à sua casta, o indivíduo estará cumprindo a lei eterna de todas as coisas (sanatana dharma).
  • Kundalini-yoga: Kundalini é uma energia localizada na base da coluna vertebral. O objetivo é capacitar o indivíduo a alcançar o SAMADHI, através dos CHACRAS, localizados na base da espinha até o alto da têmpora.

VII. Morte

É a transição efetuada pela alma de um corpo para outro. Declara o Bhagavad-gita: “Assim como, neste corpo, a alma corporificada seguidamente passa da infância à juventude e à velhice, do mesmo modo, chegando a morte, a alma passa para outro corpo”. O ciclo de nascimento e renascimento termina quando o indivíduo alcança a moksa.

VIII. Informações adicionais

  • Apesar de proibido pelo governo indiano desde o final da década de 1940, a sociedade indiana continua dividida em castas ou varnas (cores). Baseada na mitologia hindu crê-se que as pessoas estão divididas em quatro grupos distintos: os brâmanes (sacerdotes), shatrias (governantes e guerreiros), vaixás (lavradores, artesãos) e os sudras (trabalhadores), a classe inferior, que tem como função servir as classes anteriores. Cada classe está dividida em centenas de outras (calculam-se mais de 6.000 subcastas). Outros não têm casta: são os “párias” (intocáveis). É o racismo institucionalizado pela sociedade. Por acreditarem que faz parte da lei eterna (sanatana dharma), milhões de hindus se conformam com essa situação. Muitos tentaram eliminá-lo, como foi o caso de Mahatma Gandhi (1869–1948)
  • O rio Ganges (também conhecido como Ma Gangá [Mãe Gangá]) é adorado, pois a água simboliza vida interminável. Crêem que dele procede a purificação dos males físicos e espirituais. O fiel hindu deverá banhar-se em suas águas pelo menos uma vez na vida. Muitos bebem de sua água poluída, que também recebe cinzas de cadáveres cremados, ou simplesmente enrolados em panos, além de esgotos etc.
  • A vaca é considerada sagrada no Hinduísmo. No Atharva Veda há poemas que prestam honras a esse animal. Por vezes, Krishna é representado como pastor de vacas, daí a importância que elas têm para os hindus, que usam sua urina (considera sagrada) em seus rituais de purificação). Alimentar vacas é um dever sagrado para os adeptos do Hinduísmo.

Glossário

Adharma: mal, imoralidade, desordem, injustiça, iniqüidade.

Ahimsa: não-violência.

Ananda: felicidade espiritual.

Artha: riqueza, sucesso, uma das quatro metas ou purusarthas da vida.

Ashram: santuário usado por um guru para ensinar.

Atman: a alma individual (espírito), o eu. Pode referir-se também ao corpo (matéria), à mente, ao intelecto ou ao Eu Supremo (Brahma).

Avatar [a]: literalmente: “descendente”. Reencarnação (parcial ou total) de um deus, que vem com uma missão específica.

Bhagavad Gita: “Canto do Senhor” (contido no Mahabharata)

Bhakta: devoto.

Bhakti: serviço devocional ao deus Brahma, através de uma de suas milhares de manifestações.

Brahma: o deus criador.

Brahman: a alma universal presente em todas as coisas.

Brâmane: a mais alta das quatro castas; a classe sacerdotal (sânscrito: brahmin ou brahmana.

Deva: nome genérico para designar uma pessoa divina, semideus ou deuses.

Dharma: responsabilidade, ética, lei, moral e ordem cósmica. O princípio de ordem que governa o universo e a vida dos indivíduos.

Dhyana: meditação.

Guru: guia ou mestre espiritual.

Jiva: a alma individual eterna.

Kama: amor, prazer. Uma das quatro metas da vida humana.

Karma: Sânscrito: “ação”. O equilíbrio entre mérito e demérito acumulados por um indivíduo, que determina a natureza de sua próxima encarnação.

Mahabharata: grande epopéia marcial dos hindus que proporciona orientação sobre a vida moral.

Mahatmã – “grande alma”; figura preeminente.

Maya – literalmente: ilusão. É a condição na qual a matéria infecciona a vida espiritual, fazendo-a esquecer sua natureza espiritual e Deus. É a parte negativa da energia de Brahma.

Mantra – hino devocional, repetitivo, dirigido a um deus.

Moksha: libertação da ignorância e do ciclo de renascimentos, muitas vezes caracterizada como a união de uma pessoa com o divino.

OM – sílaba sagrada que simboliza Brahma, o Absoluto. É recitado como hino devocional (mantra). Geralmente é empregada durante as meditações.

Prema – devoção espontânea ao Deus Supremo.

Puranas: coleção sagrada de lendas e práticas rituais.

Purusarthas: as quatro metas da vida humana: artha, dharma, kama e moksha.

Ramayana: epopéia hindu em que Rama, avatar de Vishnu, derrota o demônio Ravana e se reúne com sua amante Sita.

Shakti: energia divina, caracterizada como feminina e personificada na Deusa.

Sânscrito: Antiga língua da família indo-européia; a língua clássica da Índia e do hinduísmo, em que está escrita a maioria da sua literatura desde os Vedas.

Swami – mestre espiritual de categoria mais elevada.

Upanixades: textos místicos de filosofia especulativa.

Vedas: textos sânscritos que revelam veda ou conhecimento sagrado, compilados por volta de 750-600 a.C.

Vikarma – atitude pecaminosa.

Vishnu: sustentador do universo cujos avatares descem de tempos em tempos para restabelecer a ordem no mundo dos humanos.

Yajnana – sacrifício.

Yuga: uma era do mundo.

[1] MORBIDELLI, José Donizetti. Eclésia. Edição 133. Abril de 2009, p. 40-48.

[2] www.portasabertas.org.br. Acessado em 14 de julho de 2009.

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