por: Pr. Natanael Rinaldi[1]

Introdução

Diz Ellen Gould White, profetiza dos adventistas do sétimo dia (ASD) a respeito da importância de guarda do sábado: “Santificar o sábado ao Senhor importa em salvação eterna” (Testemunhos Seletos, vol. III, p. 22 – 2ª edição, 1956).

Qual a autoridade dessa profetisa dentro da Igreja Adventista? A nossa resposta é que seus ensinos são considerados de autoridade igual a dos escritores bíblicos pelos ASD. Declaram: Ao passo que, apesar de desprezarmos o pensamento dos pioneiros, nós aceitamos como regra de fé a Revelação – Velho Testamento; Novo Testamento e Espírito de Profecia” (A Sacudidura e os 144.000, p. 117)

Nos tempos antigos, Deus falou aos homens pela boca de Seus Profetas e apóstolos. Nestes dias Ele lhes fala por meio dos Testemunhos do Seu Espírito. Não houve ainda um tempo em que mais seriamente falasse ao Seu povo a respeito de Sua vontade e da conduta que este deve ter”.  (Testemunhos Seletos, vol. II, p. 276, 2ª edição, 1956).

Ora, lemos na Bíblia diferentemente do que escrevem sobre a autoridade da sua profetisa. O texto bíblico citado, erroneamente, está assim redigido: “Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho” (Hebreus 1.1).

ABOLIÇÃO DO SÁBADO

 Muito embora a discordância dos ASD, que não toleram ouvir falar em abolição do sábado, a profecia concernente à abolição do sábado semanal é indicada em Oseias  2.11: “E farei cessar todo o seu gozo, as suas festas, as suas luas novas e os seus sábados; e todas as suas festividades”.

 O cumprimento da profecia de Oséias 2.11 se deu quando Jesus bradou na cruz, “Está consumado” (Jo 19.30). Lê-se que, nesse momento, houve o rompimento do véu do santuário: “Eis que o véu do santuário se rasgou em duas partes de alto a baixo.” (Mt 27.51). Com isso, foi dado fim a todo o cerimonialismo da lei. Dentre as coisas que foram abolidas, a partir de então, está a guarda do sábado semanal.

É o que lemos em Colossenses 2.14-17: “Havendo riscado a cédula que era contra nós nas suas ordenanças, a qual de alguma maneira nos era contrária, e a tirou do meio de nós, cravando-a na cruz. E, despojando os principados e potestades, os expôs publicamente e deles triunfou em si mesmo. Portanto ninguém vos julgue pelo comer, ou pelo  beber, ou por causa dos dias de festa, ou da luz nova, ou dos sábados, que são sombras das coisas futuras, mas o corpo é de Cristo.”

EXPLICAÇÃO ADVENTISTA DE CL 2.14-17

 Se os ASD aceitassem que a palavra sábados do texto em tela se aplica corretamente ao sábado semanal, então não haveria prova bíblica de sustentar a guarda do sábado no Novo Testamento. E eles sabem disso. Por isso, quando em polêmicas levantadas por eles querendo sustentar a obrigatoriedade da guarda do sábado, explicam que a palavra “sábados” de Colossenses 2.16 se aplica aos por eles intitulados sábados cerimoniais ou anuais de Levítico 23. É a resposta óbvia que dão quando alguém aponta Colossenses 2.14-17 como prova da abolição do sábado semanal.

Dizem: ”Então você não sabe que existem dois sábados nas Escrituras? O sábado semanal, que é de caráter moral e o sábado cerimonial ou anual? Este – sim – foi abolido na cruz, mas o sábado semanal continua obrigatório”. Vejamos se os ASD têm razão no seu raciocínio:

NOSSA RESPOSTA À EXPLICAÇÃO DE CL 2.14-17

Existem quatro razões para explicar que a defesa feita pelos adventistas com relação à guarda do sábado é sem base bíblica:

PRIMEIRA RAZÃO: Os Dias de Festas

A expressão “dias de festa” de Colossenses 2.16 se relaciona com os feriados anuais ou sábados cerimoniais que eram denominados dias de festa: “São estas as festas fixas do Senhor, que proclamareis para santas convocações, para oferecer ao SENHOR…” (Lv 23.37).  Logo, os sábados cerimoniais ou anuais já estão incluídos nessa frase, restando à palavra “sábados” o sentido diferente de “sábados semanais”: “… além dos sábados do SENHOR…” (Lv 23.38).

Eram sete as festas anuais judaicas mencionadas em Lv 23:

  1. Festa dos Asmos – v. 6
  2. Festa da Páscoa – v. 5
  3. Festa de Pentecostes – v. 15, 16
  4. Festa das Trombetas – v. 24
  5. Festa da Expiação – v. 27, 28
  6. Festa dos Tabernáculos (primeiro dia da festa)- v. 34
  7. Festa dos Tabernáculos (último dia da festa) – v. 36

SEGUNDA RAZÃO: A fórmula ”dias de festa, luas novas e sábados”

A fórmula “dias de festa, luas novas e sábados” é a  consagrada para indicar os dias sagrados anuais, mensais e semanais ou, inversamente, semanais, mensais e anuais.

Exemplos bíblicos da fórmula:

Exemplo n. 1:

Em Números 28 encontramos os holocaustos para os dias de sábados (semanais), para as luas novas (mensais) e dias de festa (anuais) nos seguintes versículos”: “… no dia de sábado dois cordeiros de um ano, sem mancha… Holocausto é do sábado em cada semana…” (v. 9,10). “E  as suas libações serão a metade dum him de vinho para um bezerro… Este é o holocausto da lua nova de cada mês, segundo os meses do ano” (v. 14) “Porém no mês primeiro, aos catorze dias do mês, é a páscoa do Senhor; E aos quinze dias do mesmo mês haverá festa; sete dias se comerão pães asmos” (v. 16,17) (os grifos são nossos).

Exemplo n. 2:

1Cr 23.31: “…e para cada oferecimento dos holocaustos do Senhor, nos sábados (cada semana), e nas luas novas (cada mês) e nas solenidades (cada ano), por conta, segundo o seu costume, continuamente… (os parênteses são nossos).

Exemplo n. 3:

2Cr 2.4: “Eis que estou para edificar uma casa ao nome do Senhor meu Deus, para lhe consagrar, para queimar perante ele incenso aromático, e para o pão contínuo da proposição, e para os holocaustos da manhã e da tarde (cada dia), nos sábados (cada semana) e nas luas novas (cada mês), e nas festividades do Senhor nosso Deus… (cada ano).” (os parênteses são nossos).

Exemplo n. 4:

2Cr 8.13: “…e isto segundo o dever de cada dia, oferecendo segundo o preceito de Moisés, nos sábados (cada semana) e nas luas novas (cada mês), e nas solenidades (cada ano), três vezes no ano… (os parênteses são nossos).

Exemplo n. 5:

2Cr 31.3: “Também estabeleceu a parte da fazenda do rei para os holocaustos, para os holocaustos da manhã e da tarde, e para os holocaustos dos sábados (cada semana), e das luas novas (cada mês), e das solenidades (cada ano), como está escrito na lei do Senhor.”(os parênteses são nossos).

Exemplo n. 6

Ez 45.17: “E estarão a cargo do príncipe os holocaustos, e as ofertas de manjares, e as libações, nas festas (cada ano), e nas luas novas (cada mês), e nos sábados (cada semana), em todas as solenidades da casa de Israel.” (os parênteses são nossos).

 TERCEIRA RAZÃO: Os termos sábado, sábados e dia de sábado

Dizem os ASD: “Os termos sábado, sábados e dia de sábado ocorrem sessenta vezes no Novo Testamento, e, em cada caso, exceto um, referem-se ao sétimo dia. Em Col 2.16 e 17 faz-se referência aos sábados anuais relacionados com as três festas anuais observadas por Israel antes do primeiro advento de Cristo.” (Estudos Bíblicos, p. 378, 4ª. Edição, ano 1979).

Perguntamos: Em qual caso fazem exceção os ASD? Justamente o de Colossenses 2.16. Então os termos “sábado, sábados e dia de sábado aparecem 60 vezes e sempre se referem ao sétimo dia com exceção de um – o de Colossenses 2.16. Entretanto, se dermos à palavra “sábados” o sentido de sábados semanais no texto em apreço, teremos, em apoio da nossa interpretação, 59 referências bíblicas, reconhecidas pelos próprios ASD, como sábados semanais.

 Se os ASD derem o sentido de sábados anuais ou cerimoniais à palavra “sábados” de Colossenses 2.16, só terão  em apoio de sua interpretação um único caso, que é próprio texto em discussão. Logo, a nossa interpretação é a correta e apoiada pela Bíblia. E por quê? Porque é regra de hermenêutica que a Bíblia com a própria Bíblia se interpreta.  Num raciocínio leve comparemos: se duas pessoas se candidatam a um cargo eletivo e uma delas alcança 59 votos e a outra só um, quem é a vencedora? A resposta é óbvia.

Assim, os dias sagrados anuais são conhecidos pela expressão “dias de festa”; dias sagrados mensais são conhecidos pela expressão “luas novas”,  e dias sagrados semanais pela expressão “sábados”.  Se conservarmos o verdadeiro sentido de “dias de festa” para os chamados sábados anuais no texto em discussão, teremos, dentro da palavra “sábados”, que aparece logo em seguida, o sentido de sábado semanal. Conclusão: todo ciclo de dias sagrados do judaísmo: anuais, mensais e semanais, é indicado pela expressão “dias de festa, lua nova e sábados” que terminaram na cruz e não devem ser motivo de exigências como fazem os ASD e muito menos  de que seja  necessária a guarda do sábado para salvação,  como erroneamente ensina a Sra. White.

QUARTA RAZÃO: O uso da palavra “sábados” (no plural) no Novo Testamento

 Alegam ainda os adventistas que no texto de Colossenses 2.16 a palavra “sábados” aparece no plural e que essa palavra no “Velho Testamento, é aplicada não somente ao sétimo dia, mas a todos os outros dias de repouso sagrado que eram observados pelos hebreus, e particularmente ao começo e encerramento de suas grandes festividades.”  E concluem dizendo: “Se tivesse sido usada a palavra no singular, ‘o sábado’, teria ficado claro, naturalmente, que se  pretendia ensinar que esse mandamento havia deixado de ser obrigatório, e que o sábado não mais devia ser observado.” (Do Sábado Para o Domingo, p. 32, Carlyle B. Haynes, edição 1996, CASA)

Ora, os escritores adventistas parece que escrevem sem consultar suas próprias literaturas, porque, do contrário, não cometeriam o erro escancarado para justificar sua teimosia em querer guardar o sábado, que, biblicamente, está definitivamente afastado, por ter ocorrido sua abolição. É o que expusemos na TERCEIRA RAZÃO, que é o ensino do uso da palavra “sábados” indistintamente no Novo Testamento. Repetindo a declaração já feita:

“Os termos sábado, sábados e dia de sábado ocorrem sessenta vezes no Novo Testamento, e, em cada caso, exceto um, referem-se ao sétimo dia. Col. 2.16 e 17 faz referência aos sábados anuais relacionados com as três festas anuais observadas por Israel antes do primeiro advento de Cristo.” (Estudos Bíblicos, p. 378, 4ª. Edição, ano 1979).

Como dissemos na TERCEIRA RAZÃO os próprios adventistas declaram que “os termos “sábado, sábados e dia de sábado aparecem 60 vezes e sempre se referem ao sétimo dia com exceção de um – o de Colossenses 2.16.”

ALGUMAS REFERÊNCIAS ONDE APARECE A PALAVRA SÁBADO NO SINGULAR OU SÁBADOS

(Mt 12.5) “Ou não tendes lido na lei que, aos sábados, os sacerdotes no templo violam o sábado, e ficam sem culpa?”

(Mt 12.12) “Pois, quanto mais vale um homem do que uma ovelha? É, por conseqüência, lícito fazer bem nos sábados.”

(Lc 4.31) “E desceu a Cafarnaum, cidade da Galiléia, e os ensinava nos sábados.”

(Lc 6.2) “E alguns dos fariseus lhes disseram: Por que fazeis o que não é lícito fazer nos sábados?

(Lc 6.9) “Então Jesus lhes disse: Uma coisa vos hei de perguntar: É lícito nos sábados fazer bem, ou fazer mal? Salvar a vida, ou matar?”

(Jo 5.9) “Logo aquele homem ficou são; e tomou o seu leito, e andava. E aquele dia era sábado.”

(Jo 5.16) “E por esta causa os judeus perseguiram a Jesus, e procuravam matá-lo, porque fazia estas coisas no sábado.”

(Jo 5.18) “Por isso, pois, os judeus ainda mais procuravam matá-lo, porque não só quebrantava o sábado, mas também dizia que Deus era seu próprio Pai, fazendo-se igual a Deus.”

OS MANDAMENTOS DE JESUS

Reiteradamente encontramos na Bíblia a recomendação de Jesus para guardarmos seus mandamentos. As seguintes passagens assim indicam:

“Se me amardes, guardareis os meus mandamentos” (Jo 14.15).

“Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama.”(Jo 14.21).

“Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor; do mesmo modo que guardo os mandamentos de meu Pai, e permaneço no seu amor” (Jo 15.10).

“E nisto sabemos que o conhecemos se guardarmos os seus mandamentos. “(1Jo 2.3).

“Nisto conhecemos que amamos os filhos de Deus: quando amamos a Deus e guardamos os seus mandamentos” (1Jo 5.3).

A NATUREZA DOS MANDAMENTOS DE JESUS

A que Jesus se referia quando falava de seus mandamentos? Os ASD, logo que encontram a palavra “mandamentos” no Novo Testamento, associam a palavra aos dez mandamentos e, por extensão, ao 4º mandamento. Não é, porém, correto esse modo de pensar. Jesus foi bem específico quando falou de seus mandamentos.

Vejamos a que Jesus se referia quando falava de mandamentos:

“Um novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros; como eu vos amei a vós, que também vós uns aos outros vos ameis” (Jo 13.34).

“O meu mandamento é este: que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei” (15.12).

“O seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo seu mandamento” (1 Jo 3.23).

“E dele temos este mandamento: que quem ama a Deus, ame também seu irmão” (1Jo 4.21).

“E agora, senhora, rogo-te, não como escrevendo-te um novo mandamento, mas aquele mesmo que desde o princípio tivemos: que nos amemos uns aos outros” (2ª Jo 5) (os grifos são nossos). Notou o leitor que nada se fala de guardar o sábado?

PROFECIA DA GUARDA DO DOMINGO

 No Salmo 118.22-24 lemos: “A pedra que os edificadores rejeitaram tornou-se cabeça de esquina. Foi o Senhor que fez isto, e é coisa maravilhosa aos nossos olhos. Este é o dia que fez o Senhor; regozijemo-nos, e alegremo-nos nele.”

Essa passagem foi aplicada por Jesus a si mesmo em Mateus 21.42: “Diz-lhes Jesus: Nunca lestes nas Escrituras: A pedra, que os edificadores rejeitaram, essa foi posta por cabeça do ângulo; pelo Senhor foi feito isto, e é maravilhoso aos nossos olhos?”

 Não é algo difícil darmos a interpretação correta dessa referência bíblica. A pedra rejeitada é Jesus Cristo (At 4.11,12). Iniciou seu ministério reivindicando ser Filho de Deus, igual a Deus (Jo 10.30-33); e sendo acusado de quebrar o sábado (Jo 5.16-18), foi rejeitado e crucificado (Jo 19.1-7). Isto se deu numa sexta-feira (Mc 15.42-47). A morte não pode retê-lo e ao terceiro dia ressurgiu dos mortos. Isso se deu no primeiro dia da semana: “Havendo ele ressuscitado de manhã cedo no primeiro dia da semana, apareceu primeiro a Maria Madalena, da qual expelira sete demônios” (Mc 16.9). Outras referências são Jo 20.1,19, 20 e Mt 28.18. Diz a Bíblia a respeito do dia da ressurreição de Jesus: “Este é o dia que fez o Senhor; regozijemo-nos e alegremo-nos nele.” Ao levantar Seu Filho dentre os mortos, Deus fez essa coisa maravilhosa. E essa “coisa maravilhosa” se deu no primeiro dia da semana.

A EXPRESSÃO “DIA DO SENHOR” DE AP 1.10

 O significado da expressão “dia do Senhor”, de Ap 1.10, é encontrada em algumas traduções da Bíblia, como segue:

“Eu fui arrebatado em espírito num dia de Domingo… (Tradução de Antônio Pereira de Figueiredo).

“Num Domingo, caindo em êxtase, ouvi atrás de mim uma voz…” (Edições Paulinas).

“Um dia de Domingo, fui arrebatado em espírito” (tradução de Mattos Soares).

 “No dia do Senhor: No Domingo” (anotação no rodapé da TLH).

PROVAS ADICIONAIS DOS PAIS DA IGREJA

 “Aqueles que estavam presos às velhas coisas vieram a uma novidade de confiança, não mais guardando o sábado, porém vivendo de acordo com o ‘dia do Senhor” (Inácio, 100 A D).

  1. “No dia chamado domingo há uma reunião, num certo lugar, de todos os que habitam nas cidades ou nos campos, e as memórias dos apóstolos e os escritos dos profetas são lidos” (Justino Mártir 140 A D).
  1. “Nós guardamos o dia oitavo com alegria, no qual também ressurgiu dos mortos e tendo aparecido ascendeu ao céu” (Barnabé 120 A D).

 4. “Num dia, o primeiro da semana, nós nos reunimos.” (Bardesanes, 180 A D).

[1] Natanael Rinaldi é pastor da Igreja Evangélica da Paz em Santos, SP. É Bacharel em Direito pela Faculdade de Direito de Bragança Paulista. É conferencista e pesquisador dos movimentos religiosos e contemporâneos há mais de 50 anos. É co-autor do livro Desmascarando as Seitas, publicado pela CPAD. É o apresentador do programa de rádio Consultando a Bíblia, transmitido pela Rádio Cacique de Santos, 1510 AM, de segunda a sábado, às 8h. É casado com Paulina C. Rinaldi.  www.iepaz.org.br.

 

© Projeto CRER – Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução

DEIXE UMA RESPOSTA